A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que não quer ao menos um maior querer; foi ela que criou todos os deuses e todos os além-mundos.
NIETZCHE
"Pedro Prado sabia da crença popular, que diz que, antes da morte, o filme de nossas vidas é projetado numa tela e num tempo imaginários, que nos distraem e confundem, fazendo-nos despercebidos em relação à aproximação da asa negra do findamento. Tudo o que ele queria era morrer também. Aquele velório era bom lugar para fazer-se morto e findo, extinto e feliz, ultimando o entristecimento contínuo de um homem que perdera de vez a alegria de viver, pondo termo ao ressentimento com a vida como é e a tristeza de não poder matar-se. Isto pela crença católica que amarrava as mãos e o castigava."
"As mãos. Onde pô-las, onde tê-las? Lugares não havia para elas duas que insistiam em irritá-lo simplesmente pela existência. Não salvaram quando deveriam salvar. Não acariciaram quando deveriam acariciar. Não prestavam para nada. Não havia bolsos grandes o suficiente em sua casaca para perdê-las lá e nunca mais achá-las. Ora no rosto, escondendo a vergonha causada pela humanidade tão infinita quanto diminuta; ora postas atrás do corpo dolorido, às costas, para não serem cumprimentadas pelos insensíveis que lhe davam os pêsames. Pesarosos... seja lá o que isto pudesse ser para Pedro nada era. E as mãos ali, sem se incomodarem. E uma delas ainda teria de abraçar a alça do caixão. Decerto deixariam que ele escolhesse o lado. O esquerdo, o direito, cada um deles pediria uma mão diferente e Pedro arquitetava o crime da fuga. Sentiu vergonha, decerto sentira vergonha um dia, mas não fora aquela vergonha dali; aquilo era vergonhoso: fugir de um caixão, fugir de prestar uma última homenagem, querer acreditar que aquilo não acontecia, querer não sentir a dor que sentia. Sua dureza escorria no suor, aquele não era o Pedro Prado cascudo, cinéreo, centrado, distante. Aquilo era um simulacro de macho, e como devia ser difícil sentir tudo isso e não saber, reconhecer-se dolorido e fustigado, açoitado por sentimentos desconhecidos, inexoráveis e completos. Pedro estava perdido no poço seco de si e vinha lá uma tempestade jorrando."
"Bem pior que o mais posto, era imaginar-se fora daquilo que aconteceria ao enterrado. Sabidas bactérias desmanchando carnes que revestiram aqueles que seriam bons ossos (não por suas fortalezas calcificadas, mas pela pessoa boa que os empilharia em esqueleto). Escorridas as carnes pútridas para o fundo todo de madeira, bactérias e mesmo vermes, estes outros, alimentados de cheiro e matéria, consumiriam a vez e as formas cadavéricas. Um banquete que nem festa ou velório, o ciclo apenas em seu triste traço negativo. E ninguém saberia o apodrecer de um corpo, não fosse a maldade dos olhos... talvez os olhos sejam as primeiras sobremesas deste banquete."
"Pedro, que fora padre, nunca tivera problemas com o presenciar a morte."
"Acostumara-se com a destreza desta senhora de cabelos e pelos brancos e face tristemente escura, e bem pensava que as cores do fim poderiam ser somente o cinza, cor que o acompanhara por quase toda a vida. Do nascimento em berço simples, que na realidade berço não fora __ pois dormia no chão sobre um colchão meio velho, até a adolescência o cinza fora pouco, restrito aos dias invernais que também enxertam poesia no breu da alma humana. Pobre, lembrara-se feliz agora e que nunca na alça amaldiçoável de um caixão tivera de pegar. Porém já e ali, velho quase rico teve de fazê-lo, julgado pelo tribunal de seus tristes pensamentos réu confesso, devendo pagar pelo arco e a lira errada de suas poucas forças, incapazes de suster ou enganar o destino trágico das pessoas amadas."
"Olhando aquilo inerte e com flores em seu redor, que tentavam titubeantes dar beleza ao horrível ou perfume ao formol, o ex-padre lembrou-se do dia em que morrera sua esposa: o deus matinal de suas crenças o absolvera do castigo de ter de sepultar aquela que lhe dera duas crianças para criar, afogando-a nas águas turbulentas do oceano Pacífico. Desaparecida na imensidão salgada do mar, não lhe daria o trabalho de arranjos fúnebres e a cerimônia requestada em vida pela morta: copiosas lágrimas de carpideiras, missas de 7º, 14º, 21º e outros dias ordinários, e uma festa um ano depois para comemorar sua entrada triunfal no céu."
"Antonieta duvidara duas únicas vezes de que ao morrer fosse para o paraíso de sua fé. Preparara-se para encontrar os anjos com a dignidade necessária; aprumara suas tendências à mundanalidade conforme o bendito; ouvira o padre como fosse o próprio coração a dizer qual era o melhor caminho e o mais curto, mesmo entendendo que a fé mais parece uma trincheira de soldados, minas e encruzilhadas pronta para desnortear ou estraçalhar o pio. Porém, o deus racional daquela meticulosidade tão feminina quanto desenformada, deu a ela uma paixão de batina e estola."
"Sentiu-se divorciada de Cristo e penitenciou-se com anorexias desnecessárias, porém indispensáveis para reabrirem as portas do paraíso à sua alma perdida. E fez promessas."
"Fêmea antes de devota, conquistou as dúvidas antigas do padre Pedro Prado, que esmerava-se em satisfazer seus impulsos fisiológicos solitariamente, acreditando que, se o sêmen de sua derrota fosse expulso do corpo, uma chance fecundaria sua fé, a despeito de sua resignada falta de vocação."
"Ele a viu morrer, a fé em sua vocação para sacerdote, sem saber quais promessas ela, a esposa, fizera. Mas sempre desconfiou de que sua senhora estabelecera antes um pacto: muito pudica e envergonhada, fizera com que ele prometesse não a incomodar com necessidades masculinas e que só teriam relações para ter os filhos mandados pela inteligência divina. Visto é que casamentos assim tendem ao fracasso. Pedro, que largara a batina, continuaria o celibato e imitando Onã. Mas em uma noite quente suas certezas católicas, vencidas por dúvidas pagãs, os transformaram em amantes. Beijaram-se chupando mutuamente lábios e línguas vorazes e Pedro mexeu em sua mulher de todas as formas, experimentando todos os sabores daquele corpo virgem e sedento de uso e porque não dizer, cansado de tanto respeito. E não se tocaram outra vez durante vinte dias."
"Chegados seus dias de regra, e com o peso do pecado em suas costas, Antonieta correu até a loja de tintas recém inaugurada e arrancou Pedro detrás do balcão. Ele teve de jejuar durante sete dias, das dezoito horas até o meio do dia seguinte, rezar muitos padres-nossos e tantas ave Marias, pois ela não engravidara. Pedro e Antonieta tiveram, durante a curta existência de suas vidas em comum, uma noite de amor e duas crianças."
II
"Posta a mão direita na alça superior do lado esquerdo, um tranco com o braço trêmulo arrancou o esquife de seu suporte metálico. Fora um gesto coordenado entre quatro homens, irmãos de fé e dor. Pedro não escolhera o lado, afinal não queria participar daquele cortejo fúnebre carregando o féretro. Abraçou com a mão a alça que sobrou, não sem antes esperar que alguém o fizesse. Ele não se sentiu na obrigação de ajudar a enterrar aquela pessoa a quem não pudera estender mão e braço salvadores. Ora, porque devia estendê-los daquela forma? Mas silenciou, cárcere de seus receios e apoiou as vergastadas punitivas de sua tristeza, que já não era sábia; tristeza apenas."
"Ao levantar o rosto para achar a porta, viu Orides que se apoiava no encosto do banco de cimento no outro lado da rua, com os pés sobre o assento, a olhar para o céu como quisesse achar alguém. Acharam-se quando a cria sentiu o olhar do pai, que a chamou. Orides disse não ao apelo paterno e apontou o carro, para onde foi encontrar Neubi, seu grande amor."
"Pedro também achou, entre os muitos que multidão formava, o terço restante de sua família. Nadir vestia negro e acenou para o pai, fazendo-lhe sinais para que continuasse, e que iria embora com Orides e Neubi para sua casa. Pelo menos isso!, exclamou em voz alta, lembrando a revolta de Nadir ao saber que Orides tinha o apoio paterno para unir-se a Neubi. E sorriu. Pedro sorriu carregando o caixão, e suspirou e orgulhou-se de si para si meneando levemente a cabeçorra revestida de pelos e cabelos brancos. Pensou em sua descendência como fruto do cumprimento da lei divina que manda crescer e reproduzir. E ele, consoante sua fé, tornara-se em três e, de forma oblíqua, uma de suas crias em dois. Orides se casara, constituíra família, lhe dera um neto que em tudo lembrava o avô, inclusive o nome de pedra. Neto que o fizera conhecer muito de perto os novos costumes da sociedade e suas conseqüências, positivas ou negativas. Talvez, pensava às vezes, se fosse mais jovem, não tivesse a capacidade de analisar a vontade alheia para entender-lhe os motivos primeiro e último, e deles inferir pedaços de futuro ou sobras de condições que sustentam relações, mesmo que entre pais e filhos."
"Orides lhe dera um neto. Mas também grandes dores de cabeça com seus destemperos emocionais, descabidos e imprevisíveis, tornados à luz através de sua natureza tanto artística quanto introvertida. Uma ambigüidade falante, ambulante e pedante em algumas ocasiões; em outras um ser que se envergonhava de sua própria inteligência, coragem e arrojo. E tinha a preferência de Pedro, que se policiava para não deixar que Nadir se enciumasse. Sua fleuma irritava o patriarca, que não via graça em simplesmente aceitar o mundo sem questioná-lo. Nadir respondia acreditando que a paciência é filha legítima da inteligência. Logo, era intérprete e agente de um dom veríssimo, restando indiferente e infantil na rede de sua varanda moral, que tão fresca e iluminada. Fleuma porém, esquecida quando do episódio da união de Orides e Neubi. E não pela relação em si, mas pelo apoio do pai que, a partir de seu modo de ver o mundo, deveria ser contra, pois não respeitava tudo aquilo que aprenderam ser sagrado e, por isso mesmo, correto."
"O TEMPO, o AMOR e a personalidade de Neubi reaproximaram aqueles que nunca estiveram longe, e fez com que Pedro olhasse Nadir e sua calma inglesa com outros olhos. Mas o estranhamento provocado pelo modo de vida adotado por Orides era sempre a nuvem negra pronta para despejar raios e trovoadas entre os Prados. Como quando contaram a Pedro que ele seria vovô e ele, somente dois dias depois, conseguiu perguntar como aquilo seria possível."
"Nadir explicou-lhe que parceiros homossexuais, via de regra impedidos de adotar uma criança em face de sua condição civil vista como irregular, contratam uma mulher para servir-lhes de barriga de aluguel e, de comum acordo, ou através de sorteio, decidem quem deverá relacionar-se com a escolhida para engravidá-la ou, hodiernamente, doar o material necessário para inseminá-la de maneira artificial. Desta forma, a criança é herdeira dos bens gerados pela união dos pais e está protegida de qualquer intervenção legal que seja fruto de preconceito."
"Pedro, quando viu Pedrinho pela primeira vez, soube sem que respondessem: Orides não lhe dera a imortalidade pela descendência, e teria de esperar que seu outro filho, Nadir, lhe desse um neto mais legítimo do que aquele."
III
"A morte é a prova de que o futuro é uma simples invenção do espírito. A natureza do fim admite a única companhia provável do presente e, juntos, permitem à memória a invenção do passado. Porém, a morte não passa de uma idéia terrífica, pavorosa para o indivíduo consternado com a possibilidade sempre premente de deixar de existir."
"Pedro não a temia, nem idealizava; antes sabia naquele justo momento que a carregava, dividindo seu peso e um pouco de sua fúnebre poética com outros três homens. A tristeza sossegada de seu peito, que não soluçava, ou de seus olhos que não marejaram um só momento enrubescia seu rosto envergonhado pela aridez nas emoções."
"Olhando atentamente em seu redor, a certa altura do cortejo, porém, notou desapontado que ninguém chorava. E pôde olhar e reparar em todos, posto que eram poucos. E quis explicar-se, pedir desculpas ou ver se havia incômodo na cera pálida daquela face morta. Não pôde saber vendo o esquife lacrado, e indignou-se crendo que não havia consideração com a morte daquela pessoa. Mas foram poucos segundos fora de si; voltando, lembrou-se que cortar cebolas também faz chorar, expiando imediatamente o crime da insensibilidade de seus iguais com um longo suspiro desalentado e uma anedota mau usada."
"Um bolero e uma chuva de flores tão amarelas quanto colombianas. Seria uma justa homenagem para quem soube alegrar ouvido e olhos com sua voz de passarinho e beleza infantil. E sobre esse tapete amarelo e cheiroso, também audível _ um tapete canoro _ desfilariam os protetores de sua lembrança e também de sua graça. Rápidos, não seriam tocados pelas flores bailando no ar vindas do céu iluminado nem pisariam em suas pétalas feitas hélices a rodopiar; lentos, saberiam ouvir do bolero o euteamo que todas as belas canções sabem traduzir em êxtase."
"As mais belas passagens literárias não sepultariam a tristeza de Pedro. Porém, pensando em algo que pudesse parecer homenagem, no dia anterior, esteve horas e horas lendo seus favoritos para deles arrancar um epitáfio. Cansado de tanta releitura, pediu a seu deus particular que lhe desse um, e fizesse dele um segredo tão belo quanto incomensurável. Ficaria lá, plantado na cabeceira do túmulo indecifrável, imagem de algo que ele esquecendo ninguém saberia desdizer ou deslindar. Numa placa de bronze, simples como pedia a oportunidade, Pedro fez existir aquilo que seu deus lhe mandara por presente em sonho, nada mais que uma frase incorruptível em sua beleza e hermeticidade, nada além de um mosaico feito de belas palavras escritas por Arthur Rimbaud:"
“Quando a gente é forte, _ quem se afasta? muito fresco, _ quem cai no ridículo? Quando a gente é má, que fariam de nós?
Se arrume, dance, ria, _ Nunca pude mesmo jogar o Amor pela janela.”
"E Antuérpia B Tulipa foi baixada ao chão de cimento de seu túmulo sem orações, sem manifestações maiores do que as dos músculos dos coveiros tão fortes quanto apressados em acabar com aquilo tudo. Aquilo tudo feria imensamente o coração destruído de Pedro; não só a morte dela, mas o tratamento que lhe davam em sua última hora. Procurando entender, sentiu-se em comunhão com aquela pressa e desaviso, pois o estavam ajudando a virar a fúnebre página do mais doce e, ao mesmo tempo, amargo capítulo do livro infindo, ou findo _ não sabia _ de sua vida apequenada pelas escolhas que fizera ali sabidas e reconhecidas tardiamente como erradas."
"Muita terra depois, algumas poucas rosas vermelhas, brancas e amarelas jogadas por sobre o esquife. O trabalho dos pedreiros, rápidos, desenvoltos, sabidos da dor alheia que certamente já haviam sentido, e os adeuses lacrimejantes jogados ao ar. Pedro olhou-os, cumprimentando os pêsames enxugados em lenços esquecidos de higiene, e vendo-os achou Catarina, que o esperava com perguntas que ele não sabia responder."
"_ Seu marido não quer que participemos do projeto dela. Você a conhece muito bem, não é mesmo?"
"_ Nem tanto. Conversamos poucas vezes. Ela é muito importante. Veste-se muito bem."
"Pedro sentia a fadiga de Nietzsche e, suspirando, lembrou-se que ela havia criado o além-mundo do qual faziam parte, enfim, Antuérpia e sua gloriosa história que alguém queria contar para mais alguns. Sorriu, arruinando a tristeza de seu pesar, quando ouviu de Catarina a importância de sua entrevistadora, dada pelas roupas que cobriam as novidades relativas de seu corpo."
"_ Não tenho nada para transformar em conselho, minha doce Catarina. Ela escreverá a história da vossa prima mesmo que não lha conte."

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